

Que lindo ouvir Machaut na voz de Mauillon...
Esses dias o Alvaro Colaço postou o Marc Mauillon cantando. Reproduzi no grupo do face NUNCA PRECISOU DE CHÃO FIRME e PARA DE GRITAR ISSO SEU IRRESPONSÁVEL e pedi para o Alvaro passar o contato do cantor que em 2018 havia participado do Solo Música, projeto do coração do Alvaro.
Escrevi para o Marc, perguntando que música era aquela. Sem entender palavra, essa interpretação tinha me emocionado. Queria que ele me passasse o nome da música e, se possível, a letra por escrito.
Veio a letra. Num francês da Idade Média. (Eu não entenderia mesmo se fosse no francês corrente. Meu negócio é mais inglês e alemão). Como o contato com o Marc foi em inglês, ele teve a fineza de me mandar a letra também em inglês. Achei a letra - composta por Guillaume de Machaut lá na Idade Média - traduzida para o português num site de música, mas não me convenci. Aí começou meu conflito ético. Quem sou eu pra me convencer ou não se nem francês eu sei direito?
Pois é. Respondi para mim mesma que sou uma metida atrevida e resolvi encarar. Essa quarentena deve ter me deixado romântica. Peguei a letra em português, inglês e francês e comecei a empreitada.
Tirei umas dúvidas com o Marc, com a minha ex-professora de francês Gardênia Oliveira e para mim a tradução ficou desse jeito aí embaixo. Conservei boa parte do que já estava traduzido para o português.
Só mudei o que realmente me incomodou. A tradução em inglês tem sua beleza. Usa de liberdade poética. Só que lá no final o tradutor (não achei o nome) parece esquecer uma parte da letra. E, de maneira geral, principalmente mais ao final, para nós que falamos português, soa muito afastada da original, em função da proximidade da nossa língua com o francês, mesmo sendo um francês medieval.
É MUITO AMOR, CORTÊS, ESSE,
CANTADO POR MACHAUT
AS ILUMINURAS MEDIEVAIS EM QUE MACHAUT APARECE

O amante e sua dama, no manuscrito de Le Louange des Dames.

Machaut, desalentado, recebe correspondência de sua dama. Iluminura no manuscrito de Le Livre dou Voir Dit.

A dama e o poeta

Machaut em uma miniatura francesa do século XIV, uma cena alegórica na qual a Natureza oferece a Machaut três de seus filhos: o Senso (Razão), a Retórica e a Música.
QUANT JE SUI MIS AU RETOUR
Quant Je Sui Mis Au Retour
Quant je sui mis au retour
De veoir ma dame
Il n'est peinne ne dolour
Que j'aie, par m'ame
Diex c'est drois que je l'aim, sans blame
De loial amour
Sa biauté, sa grant douçour
D'amoureuse flame
Par souvenir, nuit et jour
M'esprent et enflame
Diex c'est drois que je l'aim, sans blame
De loial amour
Et quant sa haute valour
Mon fin cuer entame
Servir la vueil sans folour
Penser ne diffame
Diex c'est drois que je l'aim, sans blame
De loial amour
QUANDO EU RETORNO
Quando eu retorno
Da visita à minha dama
Não há desolação nem dor
Que paire sobre mim
Deus! Eu a amo, sem culpa
Com um amor leal
Sua beleza, sua grande doçura
Me incendeia com paixão
Sua lembrança, noite e dia
Me desespera e inflama
Deus! Eu a amo, sem culpa
Com um amor leal
E diante de seu alto valor
Meu coração se lança
Servir-lhe-ei sem descanso
Pensamento não mente
Deus! Eu a amo, sem culpa
Com um amor leal
WHEN I RETURN
When I return
from seeing my lady,
upon my soul,
I haven't a care in the world.
Dear God, how I love her,
with a pure and faithful love.
The memory of her gentle beauty makes me glow,
night and day,
with the flame of love.
Dear God, how I love her,
with a pure and faithful love.
The very thought of her sweet perfection
so melts my tender heart
that my one wish is to serve her constantly and selflessly.
Dear God, how I love her,
with a pure and faithful love.

GUILLAUME DE MACHAUT
(1300-1377)
Compositor e poeta francês. Cônego da catedral de Reims, foi secretário de João de Luxemburgo, rei da Boêmia. Sua obra musical é considerada um dos pontos culminantes da arte do século XIV. Guillaume de Machaut é autor de poemas líricos, baladas, danças, motetos e da famosa Messe Notre Dame, a primeira missa polifônica.
Guillaume de Machaut é considerado o maior músico da Ars Nova , período que compreende toda música composta entre 1300 até 1600. O estilo da Ars Nova é considerado mais expressivo e refinado, seus ritmos mais flexíveis e a polifonia mais "evoluída". Preguiça dessa palavra usada na Wikipedia. Poderíamos dizer que é diferente do que vinha sendo feito? Com outras formas de compor?