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Fluir 5 - Livro de Esboço

Atualizado: 20 de abr. de 2020


Me senti eu no precipício. Eu, a formiga. Minha amiga. Trabalhadeira sem carteira, sempre na beira. Vai cair. Não. Não. O avanço é firme. Acho que nem olham. Nem parecem andar ali no espasmo do ângulo reto. Não vão no atraso do fato certo. Embora reto esse ângulo, a matemática trazida pra lupa mostra a feição granulada de cada chão, a imperfeição ao alcance da mão. Um sabão. Um sabão. Vai escorregar. Vai escorregar. Vai dar aonde essa caravana. Em Havana? Não. Não deixaram trazer os médicos de lá. Os nossos daqui, no formigueiro dos atendimentos, chegam em casa pinicados pela incerteza do vírus, sem poder abraçar os filhos.

O carregamento pesa. Como adivinham o tamanho de cada peça na mata espessa? A fome já tanto faz se cessa. O abismo se aproxima? Elas impávidas na brisa. Para brisa. Limpa vidas. O abismo se aproxima? Lágrimas vão para outra esquina. Não toma cloroquina. Não toma cloroquina.

E se tiver coragem de olhar já nem é tão alto. Foi o chão que, zupt, subiu de elevador, o capim que cresceu, o mato que tomou conta da caminhada. Ainda assim, de olhar deixa zonza. A rapidez. Já nem é bom fazer as contas. Quantas formigas se perderão? Centrem-se. Centrem-se. No caminho. No caminho. Reza. Trabalha. Ouviram do Ipiranga. Arregaça as mangas. Arregaça as mangas.

Sem margens plácidas para quem marcha nas beiras ácidas.

 


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Karen Monteiro - jonalista produtora de conteúdo e tradutora do alemão e inglês
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