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Terminou muito rápido

Cada busto um susto.  Não é fácil ver as cidades cheias de homenagens a pessoas com questionável representatividade. Gente que pouco contribui para a construção da identidade popular. Nos dias da Oficina de Música circulei pelo pátio da Capela Santa Maria e senti um vazio estranho. Gostava da Feirinha de Gastronomia e dos shows de anos atrás. Era bom estar ao ar livre e participar também da Feira de Trocas ou das Oficinas Verdes. Em vez disso, vi reinar sozinho no pátio o busto de Bernardo Pericás Neto, parente da ex-primeira dama curitibana, Margarita Sansone. Será que o primo dela não gostaria de ver tocar a Corta-Jaca para o público dançar? Por que não, heim? Até a primeira-dama do Brasil, Nair de Teffé tocou ao violão a música de Chiquinha Gonzaga...  Causou um relativo escândalo em 1914 num dos saraus no Palácio do Catete, o Palácio da Presidência do Brasil. Chiquinha, a homenageada na Oficina de Musica, certamente gostaria de ver os acordes da sua música soltos lá no pátio...  São acordes que, na época, eram acompanhada por danças consideradas vulgares e lascivas pela elite. Virou uma polêmica só. Até Ru i Barbosa se pronunciou.


“Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa de recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o ‘Corta-jaca’ à altura de uma instituição social. Mas o ‘Corta-jaca’ de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o ‘Corta-jaca’ é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”
— Rui Barbosa 

Conservador até o osso. Mas, como toda polêmica uma hora passa, hoje a música Corta-Jaca pode ser tocada sem controvérsia no Teatro Guaíra para homenagear a compositora, instrumentista, maestrina, caricaturista e abolicionista. Foi Chiquinha quem compôs Ó Abre Alas em 1899, essa marcha carnavalesca tão conhecida. Foi, ainda, a primeira musicista de choro. E a primeira mulher a reger uma orquestra popular no Brasil. Haja força para conquistar espaço naquele mundo musical tão masculino, tão machista. Mulheres, hoje, ainda lutam por espaço, principalmente nas orquestras. Pode contar. Se der 20% de mulheres nessa ou naquela orquestra, é muito. (Vou voltar a esse assunto mais para o final do post e apresentar uma pesquisa sobre violência simbólica contra mulheres musicistas).


Por enquanto, digo que aconteceu algo raro na Oficina. Fiquei feliz em ver um naipe feminino de quatro trombonistas no Concerto de Encerramento de MPB. Eram alunas dos cursos da Oficina que participaram das Orquestras formadas para tocar com a .Monica Salmaso, ela que será sempre lembrada por ter nos salvado na pandemia com o Ô de Casas. O Guairão lotou lotado nesse dia, ao contrário do que aconteceu no dia em que a Orquestra Mundana Refugi subiu ao palco. Não é que o teatro estivesse vazio. Pelo contrário. Mas acredito que foi o espetáculo que teve menos gente. A Mundana Refugi é uma Orquestra de Refugiados. A elite curitibana que vai ao teatro não lida bem com o que não é espelho. Reflexo de uma sociedade que precisa manter seus privilégios.


Antes de falar da violência simbólica, me deixa falar do que achei lindo demais nessa Oficina, além da Mônica Salmaso e da Mundana Refugi. Isso para não dizerem que eu só olho o lado ruim. Vou colocar alguns links (não são dos shows nessa Oficina) para vocês ouvirem:


STUDIUM MUSICAE – Ateliê de Música Histórica apresentou “Rotas da Seda: A música do Mundo”.Uma viagem que vai além da música. Trata da cultura, da fé, do comércio, do intercâmbio entre povos. Me emocionei com as vozes de Daniele Oliveira, Márcia Kaiser e Norberto Pavelec. Em abril tem lançamento do filme do STUDIUM. Música Inesperada é dirigido por Neni Glock e produzido por Alvaro Collaço. Traz fotos antigas inéditas, da época em que o grupo ainda se chamava Conjunto Renascentista de Curitiba, lá em 1981. Vou deixar o link da apresentação da Oficina de dois anos atrás.


CORDAS MANACÁ convida CHORO DAS 3.Emocionante ver as três irmãs do choro homenageando a avó e o pai que faleceu na pandemia. As meninas têm um trailer no exterior e vivem viajando para levar nossa música por aí. Vou deixar o link da live que elas fizeram em Curitiba.  Elas são do interior de São Paulo e, normalmente, fazem lives de lá. Queria deixar um link do grupo CORDAS MANACÁ, mas não achei.


CORO E ORQUESTRA BARROCA DA 42ª OFICINA orquestra interpretou no final o “Timon of Athens”, Z.632 – Masque, de Henry Purcell (1659-1695). Londres, 1695. Lindíssimo. Vou deixar um link da música interpretada, já que esse concerto da Oficina não tem gravação.


Assisti mais a shows de música popular do que a concerto de música erudita. Queria ter ido mais ao Paiol. Não fui por duas razões: os shows ficaram concentrados em onze dias e tive que escolher. Como no ano passado foi tão difícil entrar com credencial de jornalista, esse ano, desisti. Entre tanto show bom, queria ter assistido ORIGINÁRIAS CONVIDAM ICÔNICAS. Não encontrei link dos grupos para deixar aqui.


Quando a Oficina durava quase um mês era melhor. Nos primeiros dias a gente mergulhava na música erudita. Depois vinha a popular. Agora fica tudo mais difícil tanto para o público quanto para os alunos e professores que querem participar das duas. Afinal, para muitos músicos a vida acontece tudo junto misturado. Com uma temporada maior, os vínculos produzidos eram mais fortes.


Para nós, que gostaríamos de estar em mais plateias, só nós resta chegar às 19h no Guairão, se descabelar escada acima, correndo para pegar lugar bom na plateia e aí... esperar uma hora pelo show. Se, por acaso, a gente resolve assistir ao erudito - que, em geral começa às 19h na Capela Santa Maria -, e depois correr até o Guaíra para o show das 20h, sobra o segundo balcão. Ou, se der sorte, dá para sentar nas primeiras fileiras privilegiadas, guardadas para os vips que não vieram. Nesse corre-corre pelo melhor assento, quem chega primeiro guarda lugar para os amigos.


Só que num dos concertos, na nossa longa espera, ouvimos um moço anunciar no alto-falante que é proibido guardar lugar. Ué... A Oficina pode guardar para seus convidados bem umas dez primeiras fileiras da plateia e nós não podemos? Não acho lá muito correto ficar guardando um monte de poltrona de uma vez. Mas, um lugar para a companhia que está chegando, acho que tudo bem. E as pessoas que têm problemas de mobilidade e não conseguem ganhar a corrida? Agora... Chegar super em cima da hora porque sim, com desculpa esfarrapada, na fiúza de que o amigo está guardando lugar, também acho chato... Enfim... Por causa, dos que não têm semancol, o politicamente correto tem que ser baixado sobre todos.


Por fim, quero falar da violência simbólica que paira sobre as mulheres. Janaína Fellini, musicista e jornalista apresentou uma pesquisa no Seminário Internacional Fazendo Gênero. É o maior seminário que a gente tem sobre esse tema. Foi em Florianópolis na metade do ano passado. A pesquisa também vai ser publicada em revista científica. Queria muito publicar aqui os depoimentos de mulheres musicistas que a Janaína coletou, mas eles têm que ficar restritos à academia. Logo, logo o trabalho vai ser publicado numa revista científica. Vou reproduzir aqui a conversa que tive com a Janaína.

“Fiz uma pesquisa qualitativa. Não são dados de percentual, mas entrevistas. A pesquisa fala sobre o que é violência simbólica, como isso surge, como isso influência o trabalho das mulheres. Posso te falar que é uma realidade muito dura. O universo da música sempre foi um universo masculinizado e, de uma certa forma, por mais que a gente tenha hoje direitos iguais em tese a igualdade de gênero é um direito e não uma escolha. A minha pesquisa é baseada num dado – aí sim um dado quantitativo do ECAD, sobre a distribuição de direitos autorais. A gente tem hoje no Brasil 92% de direitos autorais distribuídos para compositores homens e só 8% para mulheres. É um percentual muito alto. É uma discrepância muito grande.
Embora a gente possa achar que a gente vive num mundo igual, existe uma posição de privilégio. A posição mais respeitada na música - que é a de compositor – é ocupada por homens. As mulheres estão em outras posições. Esse respeito é de uma ordem simbólica. E isso vem de uma questão cultural nossa. Uma questão de base. A gente chama de simbólico no sentido de que é subjetivo. Não é algo que é dado, posto, imposto. Não tem ninguém falando: olha você não pode criar composições. Isso, aliás, aconteceu durante muito tempo. Muitas mulheres precisaram registrar suas canções em nome de outras pessoas porque não podiam registrar por serem mulheres”.

Quis saber como a pesquisa foi recebida na academia...


"Foi bem e mal recebida... São vários tipos de pessoas. A academia é um ambiente muito masculinizado, sempre foi. Por parte de alguns homens eu sinto que o trabalho teve uma recepção que foi questionadora em um sentido até de uma negação, dizendo que isso não acontece, de que isso não existe, embora os números e depoimentos sejam incontestáveis.

Em vez de fazer pergunta abri para a Janaína discorrer sobre o que ela considerava mais importante...

“Essa questão das mulheres na música é uma camada específica que reflete o que acontece no trabalho das mulheres na vida em sociedade. E isso está atrelado à chegada do capitalismo, do monoteísmo, com o cristianismo, jun to com o Estado. Isso vem lá da época em que as adorações às deusas foram proibidas e os templos foram destruídos e as mulheres passaram de uma posição de liderança a uma posição subjugada, o que culmina, com relação a essa posição de poder, isso é levado ao extremo durante o período da santa inquisição, que durou duzentos anos – durou mais que isso, mas fortemente foi esse período.  
Aí a sociedade entrou num lugar em que as mulheres não conseguiram mais reagir. A mulher sai, duzentos anos depois de ter seu corpo massacrado pelos seus próprios conhecimentos, pela sabedoria, pelo exercício da medicina, sai pra ocupar uma posição que é domesticada, que é circunscrita aos limites do lar e aí começa a questão do trabalho não pago: o cuidado com a família. Houve um limite da socialização. As mulheres são cerceadas pelo patriarcado e acabam se acostumando, vamos dizer assim... Hoje a gente tem isso refletido em várias questões.
 A ONU estima que a gente demore mais ou menos trezentos anos para conseguir algum nível de igualdade de gênero no mundo. Hoje não tem nenhum país que tenha alcançado, que sequer tenha chegado perto de conseguir igualdade de gênero. E isso está em todos os lugares. Está relacionado ao salário, à questão do acúmulo de tarefas. A mulher assume as questões da casa e também trabalham fora. Passam a ser exploradas pelo capitalismo, enquanto os homens seguem suas vidas como sempre fizeram. Culturalmente, talvez, um pouquinho mais, um pouquinho menos, porque a geração de agora já está mais esperta, mas, ainda assim, tudo muito rudimentar.
 É uma questão para uma discussão longa, profunda que vai exigir da gente muita reflexão para poder entender como isso aconteceu com a música que, na verdade, seguiu os mesmos ritos da vida em sociedade. É onde o compositor, então, alcança uma posição de status que é máxima. As mulheres ficam com a posição de intérpretes, posição de menos valia dentro das assimetrias simbólicas dentro do universo musical especificamente”.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

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Karen Monteiro - jonalista produtora de conteúdo e tradutora do alemão e inglês
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