Vestido-novelo na Flor Africana
- CAIXA CAIXOTE CAIXÃO
- 5 de fev. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de jun. de 2022

Aqui jaz um vestido dos idos. Buá.Buá. Doído. Eu não sou vestido. Sou nascido novelo. Rasg. Rasg. Ai. Ai. Rasgou-se-me. Em tiras. Já estava, antes, rasgado por um nada que nem foi violento. Acontece nos melhores tecidos de algodão fininho. Não dava para costurar. Nem cerzir. Nem vó competente no fazer (e que não teve tempo de ensinar neta) conseguiria.

Veio de brechó de amiga. Sem coragem de ser jogado fora, ficou lá guardado, um pouco esquecido. Um dia, sempre tem um, na pressa para ir – ironia – na costureira do bairro pegar a calça do irmão que já estava fazendo aniversário de barra feita – vestiu o talzinho antes de se fazer nascido novelo. Caminhou todo corredor da saída do bloco B e foi pra rua. Só lembrou do rasgão no meio do trajeto. Quem viu, viu. Não voltou. Com uma das mãos, segurou o sustentável buraco e foi.
Chegou em casa com se nada tivesse acontecido e disse pra si mesma: hoje vai pro lixo. Nem que fique pendurado na beira da lixeira balançando ao vento como num adeus. Essa balela de prometer, pelo menos, serve pra inventar. Resolveu foi rasgar o vestido em tiras, dar vários nós invencíveis de tecelão, e, para coroar a ideia, pensou no novo novelo crochetado na beira, ao redor, da mochilinha Pedra-Raiz que andava por terminar e que, por coincidência das bordas do inconsciente tinha cores bem parecidas.

Ué... Mochilinha? Não era bolsinha? É que, de uma conversa com uma amiga fotógrafa e com uma operária fazedora de mel, prima da Pedra-Raiz, veio a sugestão da mochilinha e da flor africana. Na beirinha da iniciada flor cinza e branca, a prima foi revelando o segredo da flor, repassado pela avó. E completou: se não conseguir, vê um tutorial na internet e adapta. Disso isso, se foi. Apareceu uns dias depois como que dando uma cobrada e perguntando o porquê de a crocheteira não ter publicado no blog o vídeo dela, prima, polinizando a outra flor de crochê, ao ritmo de Clarone no Choro, do Sérgio Albach.
Falou pra ela que não tinha esquecido, não. É que tinha surgido a ideia do novelo-vestido. Isso levou um tempinho. E convidou a prima da Pedra-Raiz para tomar, pelas beiradas, um chá preto. Enquanto a conversa rodava, aproveitou para usar um pouco do chá pra tingir as tiras rasgadas do forro de algodão do, então, vestido.

Claro que falaram das mortes de Moise, da Marielle e das injustiças intermináveis que assolam esse país. A prima perguntou se poderia ajudar em alguma coisa. E a mulher do vestido-novelo respondeu: ficando viva ao exigir seus centavos na corda-novelo bamba, dançando na borda-novelo samba, fugindo da novela-tampa, luzindo pra caramba.


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