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Candombe, hombre e Yvone do pisilone.

Foto do escritor: Para de gritar isso seu iPara de gritar isso seu i

Atualizado: 18 de abr. de 2021



Vocês já devem ter percebido que evito ao máximo divulgar músicas e músicos que lembrem o chato cidadão Sam ou que procurem o divã de qualquer colonizador que insiste em vir com promessa vã de reflexos fugidios que tem medo da cã no espelho e tela dos chiques aparelhos modernos. Cansada da parafernália reprodutora das mesmas imagens, passos e acordes pobres de singularidade, ricos de pouca vontade de conhecer o que não se fantasia de glamour no tour...

Tá difícil. Quase todos acabam colocando no repertório alguma coisa que vai nessa linha do: “imagina, hoje todos nos influenciamos. A cultura é mutante e maleável. Vai pra lá uma coisa, volta outra. Vira uma mistura, um caldeirão. Esse argumento é comum para justificar a influência católica, por exemplo, na cultura popular, mas tem sido usado para tudo. Eu acho que se não cuidar uma tal verdade musical, aquele tal compasso vai se dissolvendo no ar sem nem se estar a par. Quando um vê já e outro, num enrosco cheio de argumentos bons, mas que não me convencem.

Sim, é preciso sobreviver. É preciso mesmo riff de guitarra na marra. Está num só lugar a farra? Amarra público. Amarram-se músicos. Enlaçam-se em júbilo. Festa e show de repetitivas rezas dançadas em raízes transplantadas que pegam facinho, facinho. Quando um vê se amarraram na calma. Se enovelaram na palma os fios. Desconfio de brincadeira que cai sempre na mesma geometria compilada no jogo das falsas fadas, compassada no ritmo das subliminares e consumistas falas.

Vou apresentar aqui um grupo que deu origem a essa reflexão, embora meu pensamento tenha voado duramente e eles não tenham a ver com todo, todo desabafo poético aí de cima, que fique bem claro... Conversei com os argentinos do Ey Camdombe. Os caras são bons. Gostei. Não é só por isso que gostei, mas eles participaram do Festival Internacional Online Tango Movimentos Urbanos, organizado pelo Movimento Tango de Rua. Digo não é só por isso porque um grupo não precisa, necessariamente, participar de um Festival ou tocar num grande teatro para ser bom, certo?


O Ey Candombe é formado pelo Tambor repique do Esteban Giussani, o Tambor piano de Comas González, o Tambor Chico de Alfredo García Reinoso e Emiliano Reinoso, o pianista, com quem conversei pelo direct no instagram.

Antes de reproduzir a conversa que tive com ele, deixo aqui um texto de Natacha Muriel Lopez Galluci: Del candombe al tango. Nele Emiliano diz que um dos desafios do grupo é arranjar e interpretar tangos argentinos ao ritmo do candombe (uruguaio).

A mistura acaba que dá num repertório bacana, mas o que achei chato, não precisaria nem confessar, é que eles incluem música americana na história. Fazem isso transportando para o candombe. Menos mal. Louvável a iniciativa. Mas, fiquei me questionando quem sai ganhando com essa inclusão. Que cultura essa mais onisciente e onipotente, caramba.

Ô bicho chato essa mulher, né? Ah, gente, eles têm o direito de tocar o que quiserem e eu tenho o direito de não aguentar mais ouvir as mesmas coisas, ainda que maquiadas. Me deixa. Amigos, amigos, músicas à parte. Brincadeira... A gente nem virou amigo ainda... Não que não possamos. Depois dessa, nem sei.


Aí vai a conversa.

Queria saber mais sobre o grupo...

Somos uma formação integrada por uma corda de Candombe e um Piano. Interpretamos, arranjamos, compomos, música instrumental e também cantamos. Tudo no ritmo do candombe afro-uruguaio.
Nossa busca musical abrange diversos estilos, desde tango, pop, jazz e (obviamente) candombe. Somos muito influenciados pelo tango, todos gostamos. Tocam, cantamos alguns, todos convivemos com o tango.
Nosso desafio é arranjar e interpretar esses tangos no ritmo do candombe. O poder "frasear" a melodia, para que soe candombera e que o tango se destaque...
Manzi, Mores, Cobian, De Angelis, são alguns compositores que tocamos, em forma instrumental e cantada, com jogo de vozes no estilo de clássicos como Nostalgias, Tanguera, Pregonera.
Isso em referência ao próprio tango. Interpretamos também Stevie Wonder, Michael Jackson, George Benson, fundindo o candombe. E clássicos de Rubén Rada, Hugo Fattoruso e outros.
Nosso encontro começou muito antes. Nos conhecemos em uma trupe de candombe, chamada La Cumparsa, em Munro. Todos nós aprendemos a partir do tambor, chico, pinao e repique. Conhecer o toque, suas figuras, seus silêncios, aquela música gerada pelos três tambores com suas respectivas figuras rítmicas. Pendurar o tambor, caminhar, desfila... Esse foi o aprendizado necessário para poder enfrentar um projeto musical.
Nossa busca passa pelas músicas que sempre nos acompanharam (tango, rock, pop, etc) e que tentamos arranjar no modo Candombe. Às vezes sai e outras vezes não. na minha opinião nem tudo é "Candombe. "e no que diz respeito às novas composições que fazemos, tentamos ter uma linguagem musical" moderna "mas mantendo-nos populares no sentido em que seja"audível ". Exemplo Candombe para Salgan, Afro en Fm. Uma referência sempre presente é Hugo Fattoruso e a sua formação para Piano e Cordas do Candombe.

Sei que não é uma pergunta fácil, mas poderia me dizer o que é camdombe para vocês? Por que foram por esse caminhos? E na opinião de vocês o que não é "candombeável"?

Muito difícil de responder. O candombe não é só a música, é o encontro na rua, fazer uma fogueira, temperar tambores, compartilhar o encontro, pendurar o tambor e sair tocando na caminhada. Testemunhar os Cortejos (Llamadas) no Uruguai foi o ponto de partida para mergulhar, começar a estudar e aos poucos aprender o toque, no meu caso (eu sou o pianista) tocar e andar no ritmo e no pulso musical é muito bom.
Existem certos ritmos ou motivos musicais que não são "candombe" (é uma opinião, é muito subjetiva). Por exemplo a milonga é muito parecida com o candombe, mas muitas vezes não pode ser arranjada no modo candombe. A milonga está em 2/4 e o candombe 4/4.

Vocês gostam da música dos EUA ou tocam porque o público pede e é preciso comer?

Gostamos de todas as músicas, não só dos Estados Unidos, de todas as músicas que nos influenciaram. Se podemos arranjar para o candombe, adicionamos ao repertório.

Na sua opinião, quem sai com mais vantagem quando se inclui música dos EUA no repertório? A própria música americana ou o candombe?

Olha, eu não acho que nenhum deles vai sair com mais ou menos vantagem. Então, eu acredito que é vantajoso poder arranjar e interpretar qualquer música, fora do candombe, e adaptá-la para o candombe.

Tá. Respeito. Mas não tenho como não perguntar: pra que se tem tanta coisa boa fora dessa linha. O africano candombe não basta? Não dá pra simplesmente esquecer um pouco esses nomes óbvios? Para mim, ouvir música americana no candombe é o mesmo (preciso muito de uma, por isso uso de novo essa comparação que já fiz em outro blog) que trocar cachoeira por chuveiro pandêmico. É. Melhor que nada. É é chato. É igual comer macarrão requentado. Quando a gente tá com fome vai e é até gostoso. Mas, nada como uma comidinha feita na hora, um candombe de verdade, saindo ali da cozinha... Pensa... Tá. Com tango, beleza. Sem problema. Ótimo porque somos vizinhos do país do tango e só ouvimos uns mesmos e bem de vez em quando. E, é preciso dizer, o Ey Candombe divulga nomes de compositores de um tango menos turístico ou irritantemente consagrado.

Mas, então. Você tá ali ouvindo um candombe, tá imbuído do espírito afro-latino-americano, tá crente que está em área musical mais livre, independente, aí, de repente, reconhece aquela melodia que acompanha bem um copo de leite pasteurizado, arg, de caixa longa vida pra quem? Sei. Tá bom. Vou tocar uma só para o pessoal se animar e ser conquistado pelo candombe, para conseguir mais público. Vai. Toca mais uma. Só mais uma. Só mais duas... Quando vê o candombe virou um They Don’t Care About Us, com gringo salvador da pátria, cheio de lábia para agradar mais chátria, para achatar acordes e pausas e acabar sem seus passos, numa falta dos próprios laços.

Dirão: o candombe, o nosso samba ou alguns outros ritmos nativos já estão consagrados, têm seu público. Não têm nada a temer. Ahã. É que temo pelos meus ouvidos. Temo também o sutil e natural(?) apagamento histórico que impõe moda e faz dos nossos gostos joguete na mão da indústria. Temo a perda de público para o que está mais na mão. Bom pensar nisso porque o trabalho de resgate da memória é duro e são poucos os escolhidos. Se bem, que sempre haverá uma bola da vez sendo reavivada para mostrar na mídia o quanto as autoridades se preocupam com o que é nosso. Para cada resgate, uma avalanche de outras imposições midiáticas da música tocada nas grandes fms e nas "democráticas" playlists sugestivas que entram do nada no youtube, no spotfy...

Candombe (24cm x 64cm), pintura do uruguaio Pedro Figari. Pintou esta tela em 1932 (com 71 anos de idade). Pode-se considerar que a imagem acima se relaciona com recordações de infância, onde se ilustram as reuniões de candombe no meio do século XIX.

*Retirei essa imagem e as informações sobre a obra nesse link em que você pode saber mais sobre Candombe.


* O título desse post veio porque eu estava procurando rimas para candombe. Nao achei rimas perfeitas, porém, me veio hombre, lógico. Mas e as mulheres, poxa? Acabei dando de ouvido com a música Pisilone e gostei do contexto e sonoridade para o título. A música é de Noel Rosa, inspirada num acordo ortográfico que tirou o Y do nosso alfabeto. Noel se preocupou com a Yvone (irmã do seu amigo Sebastião Ferreira da Silva), que tinha o nome escrito com a letra banida e fez a música. Alguém podia transformar em candombe pra ver como fica... Dá? Ajuda, aí, a dar unidade para o post.















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Karen Monteiro - jonalista produtora de conteúdo e tradutora do alemão e inglês
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