Fuuuuuu buraco negro
- Para de gritar isso seu i
- 9 de out. de 2020
- 8 min de leitura
Atualizado: 11 de out. de 2020

Essa é uma prova - sem nota, sem cobrança de professor, sem cientista, cura e jura pra se opor -, de que ele, o buraco negro, provoca minha vã ira e conspira para sugar, puxar, engolir, mostrar seu grave - ave, quero minha nave – intencional (?) poder. O que quero dizer é que esse calabouço do universo (real ou virtual, vai saber) quase some com uma história. Sumir, sumir não porque na minha cabeça e do Carlos Careqa já permanece faz tempo. E na cabeça do biógrafo do escritor Paulo Leminski, Toninho Vaz, também.
O Carlos Careqa você sabe, né? “O que que se tem na cabeça? Fama, fortuna, pagar as contas do mês”. Bem mascarado e dando coice. Ouve a composição dele com o Marcos Quintanilha antes de continuar a ler esse prefácio. Clipe arretado concebido e dirigido pelo André Abujamra.
Pocotó. Pocotó. Cavalguemos a partir da seca da cidade grande lá para 2013, já que prefiro não andar de carro para dar minha contribuição para o planeta e porque não tenho mais dinheiro para comprar um carro... E, se tivesse, creio que não compraria. Preferiria viajar depois da pandemia. Mia, minha... Mira minhas sete vidas, meus sete (sete é sete) anos passados para escrever sobre isso.
Estava eu lá em 2013, já jornalista independente. Não quero usar essa palavra freelancer - leia aqui, com deboche, com aquele sotaque chato americano:fFreee léééncer... Estava eu lá com uma matéria na mão, conseguida a duras penas, com a família do Leminski. Fotos de originais datilografados e corrigidos a mão pelo escritor, fotos incomuns dele, boas histórias e coisa e tal. Tudo que a filha dele mais velha, Áurea Leminski, tinha me passado depois de uma visita à sua casa no Pilarzinho – esse bairro depositário de emissoras de TV, rádio e conversas de jornalistas cada vez mais mal pagos.
Casa agradável a da Áurea, lá depois da cruz. Ai meu não jesuis... Ela foi me passando tanta coisa bacana... Quando dei de cara com um “sem descanço”, escrito a mão, pensei: taí a matéria. Legal falar do ser humano que pode errar. Até hoje não sei se ela viu que tinha me passado o escrito com o erro do pai. Acho que sim, mas talvez tenha se arrependido depois... Fiz a matéria, ofereci para a revista Bravo! (na época em que a gente ainda assinava revista cultural impressa, lembra?), mas acabou que o pessoal da Revista preferiu continuar na linha Leminski, mas dar espaço para algo que consideraram mais inusitado: falar do Leminski compositor musical. Para isso chamaram o biógrafo dele Toninho Vaz, que, lógico, teria muita coisa a escrever sobre o tema. Também não sei se a família deu a ideia ou intermediou a decisão. Essas coisas que a gente não cria oportunidade para perguntar... O fato é que a Bravo! me pediu para ajudar o Toninho Vaz. Ele me disse, então, para entrevistar o Carlos Careqa e a Anelis Assumpção – se bem me lembro... (Vou falar com ela outra hora).
Sentamos, Carlos Careqa e eu, lá dentro naquele bar gigante, o Dom Max. Lembramos, rapidamente, da época em que nos conhecemos na Emissora CNT, provavelmente. E aí ele começa a me falar dos seus encontros com Leminski. Gravei tudo, mas não guardei. Naquela época, a gente gravava, decupava, e já usava a fitinha em outra entrevista. Para economizar. Decupei tim-tim por tim-tim e enviei para o Toninho. Ele, muito educado, agradeceu. Mas não publicou. Só escreveu o que ele tinha conseguido. Como consolo – já que eu tinha dado a ideia de fazer uma matéria sobre Leminski – a Bravo! me deu o box da Estrela Leminski, a filha mais nova.
Box é aquela diagramação em separado na mesma matéria. Ou um banho de água fria, para mim. Estrela mal falou comigo nas três ou quatro vezes em que tentei. Dizia estar sempre ocupada. Fiz o que deu. E dei a matéria do “sem descanço” para o Caderno G, da Gazeta do Povo (quando ainda havia caderno cultural recheado e impresso). A Gazeta comprou na hora.
Leia aqui, mas não repara que, agora eles colocaram todas as fotos numa galeria e isso fez sumir a parte que dá nome à matéria. Pode? Tentei escrever para lá, mas o sistema não envia meu comentário, mesmo logada. O ideal é que eles deixassem, pelo menos essa cópia do material, em separado. Qualquer hora vou lá em casa (estou vivendo em pandemia com minha mãe), encontro o jornal impresso, tiro uma foto, publico aqui e aviso vocês.
Matéria publicada no Caderno G, não me dei por satisfeita. Tinha ficado com cara de tacho perante o Careqa. Precisava publicar o material dele em algum lugar. Caraminholei, caraminholei, mas não encontrei o que fazer. Anos depois, já com meus blogs, resolvi remexer nos meus e-mails para publicar. O buraco negro virtual havia consumido com o e-mail do Careqa e com o que eu havia enviado para o Toninho Vaz. Fui na memória do computador. Não estava mais. Tinha gravado no pendrive antigo de backup. Detalhe: esse pendrive estava na casa de um moço ex-vizinho que me ajudava com essas coisas de computador. Fiquei uns três anos, perguntando, por decisão de Ano Novo, se ele tinha achado o pendrive. Ele me dizia que procuraria, mas nunca deu em nada. Talvez eu tenha perguntado, sem muito tom de gravidade, em fevereiro, época em que a bagunça toma conta dos buracos negros residenciais.
Não me dei por vencida. Pandemia andando pela goela, escrevi para o Careqa – ele continua sem celular, até onde eu sei... Mora em São Paulo e eu nem tinha mais o telefone fixo da mãe, embora ele nem fique muito aqui, na casa dela em Curitiba, creio eu. Na dúvida se ele aceitaria, disse no e-mail, para retomarmos a história. Passou julho, junho, agosto, setembro, outubro. Nada de resposta. Fiquei chateada, esqueci, não cobrei. Agora, num curso sobre Leminski - com o professor Rogério Camargo – a história voltou a pulsar em mim e me puxou para o gmail. Procurei a última vez que tinha escrito para o Careqa para saber como cobrar dele e... Surpresa. O e-mail já estava lá desde julho! Só que não entrou na minha caixa. Foi para o buraco negro. Além do que, o gmail não deixou a resposta pretinha, manja?
Não é a primeira vez que acontece. Só descobri o texto dele porque resolvi dar a busca. E só resolvi dar uma busca porque me lembrei do Leminski e da história toda durante o curso. Passei o link do “sem descanço” no grupo de whats da turma do Solar do Rosário, contei uma parte da história, fiz um chorororô sobre o que a Gazeta tinha feito na galeria das fotos, falamos da tristeza do fim dos cadernos culturais, falei da opção pelos blogs... Escrevi bastante. Acho que cansei o pessoal.
Será que foi a uma tacinha de vinho tomada durante a aula? Sei que me animei e, lá pela meia-noite, peguei um caderno para escrever esse post a mão e no dia seguinte digitar, melhorar, mudar. Quanto tempo não fazia isso. Lembrei o tempo de reportagens escritas no carro de reportagem nas coxas. Tá bom. Até vale o duplo sentido para as matérias que a gente fazia rápido na rua, tendo que mandar correndo para emissora. Claro que sempre se tentava fazer o melhor, ou o menos pior... Afinal era a carona da gente lá no vídeo.
Vamos acabar logo esse prefácio e deixar vocês com o texto do Careqa. Esse é ou não é o porquê desse post, caramba? Pedi para o Careqa gravar um poema do Leminski que ele musicou. Puxei lá para o final. Quantas pessoas conseguirão encontrar o post dentro do blog, dentro do wix, dentro da internet, dentro do buraco negro... Hahaha. Criei meu próprio buraco negro, cheio de buraquinhos, bloguinhos, falhazinhas... Quantas pessoas lá do seu buraco negro terão vontade de ler?
FALA CAREQA:
De como eu conheci o Paulo Leminski ou não conheci.
Sou mais novo que o Leminski. São 17 anos. Os mesmos 17 anos que me separam de Chico Buarque. Quando comecei meu trabalho com música em Curitiba eu sempre ouvia falar de Leminski, seu trabalho de poesia e também suas canções. Naquele tempo não era fácil ouvir ou ler tudo que existia pois tínhamos que comprar o LP ou o Livro. Numa destas conversas de bar conheci uma amiga de Leminski que defendia ferrenhamente sua obra. Eu na minha ignorância total criticava o Tio Lema. Foi então que ela me emprestou dois ou três livros e mergulhei naquele universo do Polaco. Numa primeira leitura não entendi nada. Ou seja não gostei muito do que li pois ainda estava engatinhando nesta coisa de escrever. Mas para satisfazer minha amiga disse que tinha gostado especialmente de um poema: “O Paulo Leminski é um carro (cachorro, né? Ainda bem que eu tinha acabado de ver o poema na aula do Rogério. O buraco negro, sei lá, da digitação comeu o cho. Mas virar carro é palhaçada) louco que deve ser morto a pau a pedra a fogo a pique. Senão é bem capaz o filhodaputa de fazer chover em nosso piquenique.” Ela riu. Rimos. Depois eu musiquei este poema e cantava em alguns shows sob o some de Freviski, já que tinha feito um frevo em cima desta letra. Nunca mostrei pra ninguém da família Leminski. Acontece que o destino resolveu nos unir. Em 1985 o Grupo Teatroca liderado pela Nena Inoue, Marisia Bruning e Sueli Rocha resolveu montar uma peça alemã do Grupo Teatral Grips de Berlim chamada Alles Plastik. Me chamaram para fazer as músicas. Na tradução do texto, Adriano Távora e Madalena Petzl. Na adaptação do texto para teatro e canções, Paulo Leminski. Pois bem assim virei parceiro do Paulo. Nos encontramos poucas vezes. Mostrava as músicas pra ele (eu acho que mostrava) eu mudava uma coisinha ou outra e ele aprovava. Lembro de ter ido uma vez ao Pilarzinho na histórica casinha de madeira que eles moravam.
Ele me deu um livro. Aquele primeiro financiado por ele mesmo. Não fosse isso e era menos/ não fosse tanto e era quase". 1980. A dedicatória diz o seguinte: “Careca é vida! Viva!” A partir dali pouco a pouco mergulhei na obra dele. Um dia em 1988, talvez, eu estava passando pelo café dos estudantes que fica ao lado do Teatro Guaíra com meu violão Takamini (novo) que tinha comprado em Nova York, todo orgulhoso do instrumento. Leminski estava lá pediu pra abrir o estojo e tocou alguns acordes.
Sobre este encontro já relatei pra Estrela Leminski o texto abaixo: Alma e chá de boldo! O dia em que encontrei o Leminiski no Café dos Estudantes. Não sei se ainda existe com este nome. É um café que fica praticamente atrás do lado esquerdo do teatro Guaíra em Curitiba. Acho que era um sábado à tarde, de repente esbarro com o Leminski neste local. Já tínhamos trabalhado juntos no musical Alles Plastik em 1985. Eu acabava de chegar com um novo violão um Takamini E-90, que para mim era o máximo naquele momento. Enfim, Leminski pediu para ver o instrumento. Ali mesmo na calçada sem delongas abri o estojo novinho e tirei o dito cujo. Leminski com aquele jeitão amistoso e cordial dedilhou alguns acordes ao violão e sentenciou: “este violão ainda não tem alma, vai levar um tempo para que ele possua um espírito. Precisa tocar muito nele” Rimos e saí dali pensando no assunto. O Poeta tocava as coisas com a Alma dele e sabia se tinha alguém do outro lado ou não. Neste mesmo dia me convidou para beber um chopp e disse que não bebia pois passava mal. Então mais uma vez o Tio Lema sentenciou: “Você tem que deixar uma jarra de chá boldo na geladeira de plantão, toda vez que beber demais acrescenta o chá de boldo”. Alma e chá de boldo! Leminski era poesia 24 horas por dia!” Agora que nossa diferença de idade já diminuiu bastante, rs rs rs, pois o envelhecimento vai tornando todos da mesma idade, agradeço ao destino por ter conhecido Paulo Leminski e sua obra que ainda faz eco nos meus pensamentos.
O Careqa achou uma gravação original de FREVINSKI com a voz de adolescente dele... Isso foi lá por 1984/1985. É para fazer chover em qualquer buraco. Com fotos tiradas do buraco-google para acompanhar com guarda-chuva, mas só o de dançar.
debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir
Paulo Leminski
A foto do Leminski é do Macaxeira.
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