Se você cair no choro porque não dá para tomar garapa...
- Para de gritar isso seu i
- 2 de mai. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de mai. de 2020

Era dia primeiro. O primeiro que passava em casa. Não se lembrava de passar feriado em casa. Já não podia dizer que os finais e meios de semana sem shows e teatro eram chatos. Como a amiga vinha costumando dizer: você prefere sua vida antiga ou a vida? Estava a ponto de dizer que isso nem era vida, mas a verdade é que o isolamento tinha aquele algo de novidade que tanto corria atrás. Nem eram muitos os dias em que se pegava irritada ou louca para sair. Sair, por vezes, era tão estressante quanto ficar. A corrida agora era atrás dos aos vivos. Tinha um apego pelo idioma e achava mais bonito chamar assim as lives.
E nesse dia primeiro achou o ao vivo do Julião Boemio, Ricardo Salmazo e Vinicius Chamorro.
Começou com sorteio de CDs para quem contribuísse com o show. Os três ali sentadinhos de costas para uma parede cheinha de cavaquinhos e similares. Tudo pequenininho. Uma gracinha os instrumentos. Dava até vontade de brincar de showzinho, saindo da casinha de carrinho. De rolimã. Os instrumentinhos estavam na sala do Julião Boemio, ficou sabendo depois quando perguntou para o Ricardo Salmazo pelo whats se ele podia enviar a letra da música Casa da Moenda do compositor curitibano Ivo Queiroz. Não tinha entendido direito umas partes. Não que o Salmazo cantasse enrolado não. Muito pelo contrário. É que letra de música ela nunca entendia tudo mesmo. Isso achava que valia tanto para os meio surdos ou não. Até tinha tentado ouvir de novo... Mas, sei lá. Tinha pandeiro para ouvir na mão do Ricardo, violão para acompanhar nos dedos do Vinicius. E o cavaquinho nos do Julião.
Não sabia se o microfone mais perto resolveria. Aventou a possibilidade de ser a internet do capital a distorcer as letras perigosas, da mesma forma que colocam flúor na água para que todos fiquem calminhos. Mas isso era coisa de teoria da conspiração. Era melhor não espalhar essa ideia por aí. Poderiam achar que ela estava louca.
A letra. A letra.
A letra havia chamado a atenção porque falava sobre trabalho. Escravo. Uma tristeza necessária que precisa ser lembrada, relembrada, tetralembrada, heptalembrada.

Resolveu deixar o link (se resolvesse usar a palavra caminho num arroubo maior de amor pela língua, demorariam para entender. Ao vivo achava que ainda dava para salvar). A música estava no minuto 56, mas valia ouvir tudo.
Ficou sabendo, de enxerida, que os aos vivos rendiam para os músicos mais ou menos o mesmo que se estivessem tocando no bar. Com a mega vantagem – comentário dela – que não precisavam ficar ouvindo aquele burburinho ingrato das conversas do pessoal do botequim que acha que músico é pano de fundo. Pensou num caderno ético para a volta do isolamento, já que os hábitos estariam mudados e quem sabe fosse mais fácil assimilar outras ideias. Seria algo do tipo: ouça pelo menos as primeiras músicas sem abrir o bico para pelo menos fingir que está interessado na voz ou no desempenho instrumental do músico. Conversar um pouco não mata, mas bem se poderia falar das músicas e dos músicos. Se não estiver interessado em música, vá a bar que não tenha músico, caramba. Achou que esse argumento seria polêmico, que os bares e nem mesmo os músicos gostariam muito porque diminuiria a clientela. Bancou. Acreditou que a arte venceria. Quanta utopia para pensar na frente da pia.
O ao vivo havia terminado, mas resolveu deixar a louça lá para continuar ouvindo outra coisa absurda de boa. Dica do Julião. Correu para o É NO CHORO QUE EU VOU, lá no instagram. Um Festival em que participam músicos de todo país. A votação será popular nos dias 9 e 10 de maio. Achou a escolha do instagram ingrata.

Ficar assistindo naquela telinha pequena não era que nem brincar de showzinho. Voltou para a tela do computador. E olha o tamanho que ficou o vídeo dos músicos. Uma palhaçadona. A tela continuava pequena.

E o computador ali no buraco da churrasqueira cheio com o isopor vazio do não churrasco que não acontece não só por causa do isolamento, mas porque a carne está ficando a cada dia com gosto pior para o paladar dela. Mas, teve que suportar o cheiro do churrasco na casa da prestimosa vizinha que convidou a família toda para assar os pedacinhos do boizinho e se arriscar com o coronão. Festinha mórbida, pensou. Não de deixou abalar. E ficou ali ouvindo o pessoal que participa desse super festival. Corre lá. No lugar. Ou dança lá. Com a vassoura. E coa o café. Ecoa o som pela casa. Da vizinha. Da tia. De qualquer virtual companhia.

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