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Tambor na música afro? Nem sempre.

Atualizado: 12 de jul. de 2020


Para ser de origem africana a música tem que ter percussão, um tambor ressoando, então? É o que muita gente acha. Sim... Tambor, percussão são, são... Demais, mesmo. Quem não gosta não deve ter estado perto, sentido o corpo e coração vibrando junto, fazendo tum-tum-tum com eles. Lindos, poderosos insubstituíveis, marcas de uma cultura, mas não só eles. Ouve esse vídeo acima, em que Thon Nascìmêmto toca M'bira, instrumento da etnia Shona (Zimbabwe e Moçambique). A M'bira, você ouviu, não é percussão...


O Thon é do canal A MÚSICA AFRICANA ENTRA NA ESCOLA. Se você for lá, vai notar que os vídeos têm várias músicas em que o instrumento melódico, no caso o violão, é o principal. Escrevi para ele, fazendo a seguinte pergunta:


Olá Thon. Gostaria de divulgar seu trabalho, mas antes pensei em conversarmos um pouco. É proposital a utilização do violão nas músicas do canal? É para mostrar que os instrumentos melódicos estão presentes, aqui no Brasil, na música africana desde o período colonial? Você poderia me falar mais da presença dos instrumentos de corda nas músicas do Canal?


Aí vai a resposta dele:

Obrigado pelo interesse em divulgar o canal.

Na Descrição do canal (aba sobre) eu falo que essa ação, esse espaço faz parte de um projeto de mestrado profissional em ensino e relações étnico-raciais.

Eu defendi no final de 2019 e o produto final do meu projeto foi um caderno de atividades musicais, com as estratégias pedagógicas desenvolvidas durante um curso de música (eu sou professor de música) ministrado por mim numa escola pública de Salvador em 2018, o canal surge a partir do projeto e do caderno de atividades. Aquelas são as principais músicas trabalhadas com as crianças durante os 6 meses do curso.


Em relação aos instrumentos melódicos africanos, sim foi intencional, no sentido de desconstruir um pouco do estereótipo do censo comum sobre instrumentos africanos. O intuito é ressaltar a presença fundamental dos instrumentos melódicos africanos nas musicalidades africanas, antes durante e depois do período escravagista. Esse instrumentos que eu cito na história de Abiyoyo (Djembé, Balafon, Kora, Mbira) já estavam bem estabelecidos nas suas respectivas culturas africanas, muitos séculos antes dos europeus chegarem em África e continuam ainda hoje, desempenhando importantes papéis nos contextos dos estilos musicais contemporâneos africanos.


Isso precisa ser ensinado às nossas crianças e jovens.

A presença do violão se deve ao fato de ser meu principal instrumento de expressão, também toco Balafon, mas na época das gravações estava sem o instrumento (ainda continuo sem). Também tenho pesquisas sobre estilos violonisticos africanos, mas se na época eu tivesse um Balafon teria dado preferência (pelo menos na maioria das músicas) ao instrumento africano para acompanhar as canções. Mas na oficina com as crianças eu levava um xilofone (que é a versão ocidental do balafon) para que ela tivessem contato com um som mais próximo do original africano. As crianças além de cantarem as canções, também aprendiam as melodias com flauta doce (que foi escolhida para o projeto, por ser acessível, de execução não muito complicada, enfim praticidade, as flautas foram custeadas por mim).


No momento desenvolvo outra pesquisa no mestrado em etnomusicologia da UFBA - A Música Africana nos cursos de Licenciatura em Música da Bahia. E uma das metodologias do trab de campo são uma série de conversas/entrevistas com Professore/as e Pesquisadores/as musicais, sobre as presenças e ausências das músicas Africanas nos meios musicais baianos e brasileiros. E nesse contexto surgem algumas das minhas colocações no debate de hoje.

Pela escassez de bibliografia específica nesse campo, envio aqui a minha dissertação de mestrado (PPGER-UFSB). (A dissertação dele tem um monte de dicas para os professores. Vai até o final, depois da bibliografia).

Nos apêndices do texto tem um Caderno de Atividades Musicais com histórias, músicas e atividades pedagógicas como sugestões para o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira através da música no ensino fundamental.

Segue também a música Abiyoyo (história principal), que faz parte do projeto.



Terminei de ler a resposta e fui dar uma olhada na dissertação do Thon. Ele fala do gigante Abiyoyo:


A comunidade de uma pequena vila na África do Sul, vivia aterrorizada com a proximidade de um gigante misterioso chamado “Abiyoyo”. Fanta uma menina muito esperta (e que, junto com os seus 4 amiguinhos toca vários instrumento musicais africanos), ouve sua avó conversando baixinho na cozinha com sua mãe sobre um sonho que tivera na noite anterior e que o “Abiyoyo” iria chegar na aldeia outra vez. Quando questionadas por Fanta (sobre o que seria o tal “Abiyoyo”), as duas desconversam e dizem que ela teria ouvido mal e que não existia o tal “Abiyoyo”. No dia seguinte, e quando todos fogem para a floresta por preverem a vinda do gigante, cinco crianças da aldeia (Fanta, Mirian, Felipe, Amadú, e Buba) resolvem se esconder e esperar a chegada do desconhecido misterioso. Eles fazem música para não sentir medo, criando uma nova canção

(Abiyoyo, Abiyoyo, Abiyoyo, Abiyoyo, Abiyoyo, yoyo, yoyo, Abiyoyo, yoyo, yoyo) e quando o gigante chega, ele começa a dançar na roda junto com as crianças. Eles se divertem muito, ficam amigos e brincam a tarde inteira. No outro dia de manhã, quando os adultos voltam da floresta ficam muito surpresos com o ocorrido (o fato de as crianças terem ficado amigas do gigante). E nesse dia todos/as aprenderam que, nem tudo que é diferente e desconhecido, é mal ou perigoso.

Olha o poema com o qual ele termina a dissertação.


Tenta (Adaptado), da escritora moçambicana Paulina Chiziane


Não é possível percorrer o perímetro do mundo… mas tenta!

Não é possível comer todos os frutos do planeta… mas tenta!

Não é possível abraçar todas as pessoas do mundo… mas tenta!

Tenta segurar moedas na mão fechada por uma hora, consegues?

Tenta abraçar a pessoa amada por uma simples hora, consegues?

Tenta guardar o terreno do teu quintal dentro da gaveta, consegues?

Ou tenta colocar a lua no bolso para que ninguém mais veja Coloca o rio dentro de casa para que ninguém mais beba

Segura o vento com as mãos ou tapa o sol com a peneira Não consegues? Então o mundo nunca pode ser teu!

(Paulina Chiziane, 2018)


Já que o Thon tá sem o balafon, achei esse dueto na internet... Aliás, Thon, você não me respondeu o que aconteceu com seu balafon, poxa...



Atualizado em 12/07/2020

Achei mais um vídeo do Thon tocando. É mais antigo. Acho que nem ele lembrava... rs. É tanta rede, canal, dissertação que a gente se perde.



 
 
 

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Karen Monteiro - jonalista produtora de conteúdo e tradutora do alemão e inglês
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